Quando se trabalha já alguns anos nestas coisas do áudio e ao longo desse tempo se tem oportunidade de ouvir as mais variadas marcas e montar sistemas tão diversos, quer com componentes de entrada, quer do denominado high end, tem-se uma tendência natural para perder a inocência e a capacidade de nos deixarmos surpreender. No mundo audiófilo, foi criado uma espécie de ritual, da qual faz parte integrante a critica subjectiva e que muitas vezes contribui para inibir esse factor surpresa ou estado de graça em que podemos cair quando presenciamos algo fora do comum. Por ventura, isto resulta de um processo de aprendizagem da audição do som dos aparelhos, que acaba por nos fazer esquecer, quão importante é ouvir música e por, em ultima análise, subconscientemente interiorizarmos um processo constante de avaliação do som, que passa a fazer parte integrante do nosso ADN. Logo, quando ouvimos um sistema e não a música que este reproduz, sem nos apercebermos, já levamos a arma da crítica subjectiva apontada aos “defeitos” do mesmo. Temos dificuldade em proceder de outro modo. Da mesma forma que um melómano tem dificuldade em dissociar a sua crítica, da qualidade de interpretação musical, ou o instrumentista ou o Eng.º de som, na sua diferente abordagem à mesma reprodução.
Hoje a crítica dos aparelhos quase que se apresenta como cartão de identidade da aptidão auditiva. Julgo mesmo, que se muitos audiófilos ouvissem um pressuposto sistema perfeito, completamente fiel ás gravações originais, com certeza que seriam capazes de lhe apontar defeitos, pois ouvidos que se habituaram à busca de um Graal sónico inexistente, através de referências tão variadas e por vezes “infiéis”, acabam inevitavelmente por viver na ilusão das suas próprias realidades, como se de verdades absolutas se tratassem. Basta visitar alguns sites de troca de opiniões, para se ter a percepção que por vezes o áudio não passa de uma típica discussão clubista, na qual cada um defende a sua dama (entenda-se marca ou tecnologia), essencialmente pelas experiências já vividas, mas como se estas se tornassem regras para um todo que é maioritariamente subjectivo. Tudo isto vem a propósito de uma experiência recente a que tive oportunidade de assistir e em que o sistema em causa teve a capacidade (difícil) de me surpreender. Entenda-se antes demais o “sistema” como o conjunto dos aparelhos dentro de determinado espaço acústico. O espaço chama-se “O Ganho do Som” e será um estúdio de mistura e masterização audio 6.1.
O tratamento acústico esteve a cargo de Marcelo Tavares, que realizou um notável trabalho e o equipamento de áudio, basicamente é composto por 6 colunas B&W 801 (sendo as 3 da frente da ultima geração com tweeters de diamante), até aqui nada de novo, pois já tinha tido a feliz oportunidade de ouvir semelhante arranjo nos estúdios de Abbey Road. Mas ali, ouvindo apenas áudio de dois canais, consegui ter a real percepção do que umas B&W 801 são capazes. Nem no centro de estudos da própria marca, Abbey Road, ou nas nossas apresentações, consegui alguma vez ter acesso às reais capacidades destas colunas. Pela interacção praticamente nula com a sala, foi finalmente possível ouvir só o sistema e isso tornou o momento único e raro!… Como nos iludimos tantas vezes, com a realidade ali tão perto.